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O Exílio Não É Apenas um Lugar

  • Foto do escritor: thais diniz
    thais diniz
  • 22 de fev.
  • 4 min de leitura


Notas sobre trauma, linguagem e pertencimento


Existem formas de exílio que não aparecem nos mapas.


Elas não passam por aeroportos, fronteiras ou carimbos no passaporte — mas reorganizam profundamente a vida de quem as vive. São experiências de deslocamento interno, silenciosas, muitas vezes difíceis de nomear.


O exílio subjetivo não se refere apenas a deixar um país. Ele começa quando a pessoa perde o chão simbólico onde sua vida fazia sentido. Quando aquilo que antes organizava a identidade — a língua, os vínculos, o reconhecimento, a rotina — deixa de funcionar.


Muitas brasileiras que vivem fora relatam algo parecido: “Estou aqui, mas me sinto uma estrangeira”



Na clínica com pessoas em situação de migração, refúgio ou expatriamento, esse sofrimento raramente aparece como uma história bem organizada. Ele surge no corpo, no sono, no cansaço constante, na irritabilidade, na sensação de estar sempre “fora de lugar”.


A psicanalista francesa Elise Pestre, referência internacional na clínica do exílio, descreve esse estado como uma ruptura da continuidade psíquica. O trauma não é apenas um evento do passado — ele se renova no presente, na espera, na instabilidade, na ausência de pertencimento.


O trauma, nesse contexto, deixa de ser episódio. Torna-se condição.




A linguagem ocupa aqui um lugar central.


A psicanálise nos ensina que é pela palavra que organizamos a experiência. Mas o que acontece quando a língua materna está ligada à perda, ao medo ou à dor? Ou quando a língua estrangeira é necessária para sobreviver, mas ainda não permite existir plenamente?


Muitas pessoas vivem entre línguas — e, às vezes, entre versões de si.


O trabalho clínico, nesses casos, não é apenas “traduzir palavras”, mas criar um espaço onde a experiência possa, aos poucos, ser habitada novamente. Traduzir, aqui, é um gesto profundamente humano.



É importante dizer: o sofrimento psíquico em contextos de exílio é frequentemente medicalizado de forma apressada. Diagnósticos podem ser necessários, mas se tornam empobrecedores quando ignoram a dimensão social, política e afetiva da experiência.


Não se trata apenas de uma mente adoecida.

Trata-se de uma vida atravessada por rupturas.



Na clínica com imigrantes e expatriadas, o cuidado não é apenas técnico — é ético. Muitas vezes, antes de qualquer interpretação, o que sustenta é a presença. O reconhecimento. A escuta que não apressa nem reduz.


Como já apontava Donald Winnicott, quando o ambiente falha, alguém precisa sustentar.



Talvez possamos pensar que vivemos hoje múltiplas formas de exílio: geográfico, afetivo, simbólico. Muitas pessoas não cruzaram fronteiras, mas perderam referências. Vivem em suspensão, num “entre”.


O trabalho terapêutico, nesses casos, não é ensinar adaptação forçada, mas ajudar a reconstruir moradas possíveis — ainda que provisórias, imperfeitas, em construção.


Lugares onde a experiência possa respirar.


Se você é brasileira vivendo fora, ou sente que perdeu o sentido de pertencimento em algum momento da sua trajetória, saiba: essa confusão não é fraqueza. Ela é resposta a deslocamentos reais.


E pode ser cuidada.




Exile Is Not Just a Place


Notes on trauma, language, and belonging


There are forms of exile that do not appear on maps.


They do not involve borders, airports, or passports — yet they profoundly reorganize a person’s inner life. These are experiences of internal displacement, often silent and difficult to name.


Subjective exile is not only about leaving a country. It begins when the symbolic ground that once gave meaning to life starts to dissolve — when language, relationships, recognition, and familiarity no longer hold.


Many Brazilian women living abroad describe this feeling clearly:

“I’m here, but I don’t fully feel myself.”


In clinical work with migrants, refugees, and expatriates, suffering rarely appears as a coherent narrative. It shows up in the body, in sleep disturbances, chronic fatigue, irritability, or a persistent sense of not belonging anywhere.


French psychoanalyst Elise Pestre, a key reference in the clinic of exile, describes this experience as a rupture in psychic continuity. Trauma, in this context, is not only tied to a past event — it is continuously renewed through uncertainty, waiting, instability, and lack of social recognition.


Trauma becomes a condition, not just a memory.

Language plays a central role here.


Psychoanalysis understands that subjectivity is shaped through language. But what happens when one’s mother tongue is associated with loss or fear? Or when a foreign language is necessary to survive, yet not enough to fully exist?


Many people live between languages — and between versions of themselves.


Clinical work, in these cases, is not about translating words, but about creating a space where experience can once again be inhabited. Translation becomes an existential gesture.



Psychological suffering in contexts of exile is often quickly medicalized. While diagnoses may be important, they become insufficient when disconnected from the social, political, and emotional dimensions of displacement.


This is not only about a distressed mind.

It is about a life shaped by rupture.



Working clinically with migrants and expatriates requires more than technique — it requires ethical presence. Often, before interpretation, what truly sustains is recognition and listening without urgency.


As Donald Winnicott once suggested, when the environment fails, someone must hold.



Today, many forms of exile coexist: geographic, emotional, symbolic. Not everyone crosses borders, yet many lose their sense of belonging. They live in an in-between state.


Therapeutic work, in these situations, is not about forced adaptation, but about rebuilding possible places of belonging — even if temporary, fragile, or unfinished.


Places where experience can breathe again.


If you are a Brazilian woman living abroad, or if you feel disconnected from your sense of home and identity, know this: confusion is not a weakness. It is a response to real displacements.


And it can be held with care.

 
 
 

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